A Intercessão dos Santos nas Sagradas Escrituras

RESUMO

Percorrendo a Palavra de Deus vemos que os santos intercedem pelos homens, seja nesta vida terrena ou diante de Deus na eternidade. Desde as primeiras páginas da Bíblia, a intercessão já se mostra uma ação comum entre os patriarcas. Em Jesus temos, em uma única Pessoa, as naturezas Divina e Humana, perfeitamente unidas no mistério da Encarnação. Por sua humanidade recebemos a salvação divina e temos Nele a única mediação necessária entre Deus e os homens, pois somente por seus méritos infinitos foi possível pagar nossa dívida infinita com Deus, contraída no pecado original. Na Nova Aliança inaugurada por Jesus, todos os que estão incorporados pela fé e pelo batismo ao seu Corpo Místico, na Igreja, participam de sua mediação, podendo assim, viver a realidade da intercessão. Essa participação foi querida por Deus como uma intermediação secundária, não necessária, mas atestada como sendo Sua vontade pelos eventos narrados na Palavra. Nas cartas de São Paulo vemos que a comunidade de cristãos é formada pelos santos. O autor da carta aos Hebreus nos fala da nuvem de testemunhas. E no livro do Apocalipse é revelado a João a atividade das almas dos justos que estão intercedendo diante de Deus, enquanto aguardam pelo último dia, em que seus corpos ressuscitarão. Seja na terra ou no Céu, os santos podem interceder porque compartilham da vida do único mediador que vive neles. A comunhão dos santos é uma verdade bíblica. A seguir veremos os principais pontos onde podemos encontrar essa realidade nas Sagradas Escrituras.

Palavras-Chaves: Intercessão – Mediação – Santos – Anjos – Igreja – Bíblia – Sagradas Escrituras

1. INTRODUÇÃO

Na primeira carta de São Paulo a Timóteo, vemos que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Jesus Cristo” (1Tm 2,5). Para entender essa passagem precisamos voltar ao início do capítulo, onde podemos ver que a oração de intercessão é aprovada e recomendada pelo Apóstolo Paulo, sem caracterizar uma afronta ou uma oposição à mediação de Jesus:

Antes de tudo, recomendo que façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças em favor de todos os homens, pelos reis e por todos os que têm autoridade, a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda a piedade e dignidade. Isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador. Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou para resgatar a todos.
(1 TIMÓTEO 2,1-6)

Ao olhar a mediação de Jesus de modo absolutamente restrito, torna-se necessário refletir sobre as consequências de tal interpretação. Ora, se somente Jesus, estritamente, é quem intercede, então eu não poderia fazer uma prece à Deus em favor de um irmão, pois não caberia a mim interceder. Precisaríamos então admitir que somente a própria pessoa poderia pedir por si mesma a Deus, em nome de Jesus.

Quando falamos da mediação única de Jesus, precisamos ter em mente o mistério da Sua Encarnação e as implicações desse ato divino. É fato que Deus, Eterno e Onipotente, não precisa de forma alguma de qualquer criatura que seja, porém, ao lançarmos o olhar para a história da salvação, notamos que Ele quis contar com homens e mulheres para que a mensagem da salvação fosse anunciada aos outros homens.

Deus quis precisar, por exemplo, da união entre um homem e uma mulher para gerar novas vidas, quis servir-se de outros homens para que, através do sacramento do batismo, fossem gerados novos filhos de Deus. Deus escolheu Noé e sua família para que a raça humana fosse preservada, escolheu Abraão para constituir o povo escolhido, Moisés foi eleito por Deus para libertar o povo do Egito e, ao vir ao mundo, Jesus escolheu o povo judeu e quis ter um corpo humano gestado no ventre da Virgem Maria. Como ministros da Nova Aliança, os apóstolos foram investidos por Jesus para anunciar o evangelho em uma missão mundial. Portanto, mesmo não precisando das suas criaturas, Deus quis utilizar-se de intermediários.

O Deus eterno não poderia morrer na cruz, por isso uniu a si um corpo humano por um vínculo perfeitíssimo, para então poder sofrer, morrer e salvar a humanidade. Na Encarnação, o Verbo Eterno, ao assumir um Corpo, uniu em uma única Pessoa duas naturezas: Humana e Divina. A única forma de pagar a dívida infinita do homem, contraída pelo pecado de Adão, seria se Deus se tornasse homem. E foi o que aconteceu na encarnação do Verbo. Sendo Deus, ele tinha mérito infinito e, sendo homem e assumindo a culpa dos pecados dos homens, poderia pagá-los. Cristo pagou os nossos pecados, morrendo na cruz. Por isso Jesus Cristo é o nosso único Redentor. Deus nos salva na humanidade de Jesus, portanto, por causa da Encarnação. Jesus é o único mediador, pois só por sua humanidade é que somos salvos. O abismo entre Deus e os homens não existe mais porque Jesus uniu, em uma única Pessoa, essas duas Naturezas. Jesus é realmente o único mediador entre Deus e os homens. O agente principal da salvação é Deus e o instrumento para a nossa salvação é a humanidade de Cristo.

Na pessoa de Jesus, a humanidade participa da divindade. Por meio Dele (da sua humanidade) temos acesso ao Pai. Jesus é o caminho e é por esse caminho que somos salvos, unindo a nossa humanidade à humanidade de Cristo. Acontece também que Jesus possui um Corpo Místico, que é a Igreja. São Paulo, ao escrever aos Efésios, nos ensina que Jesus é a Cabeça, a Igreja seu Corpo e os crentes são membros desse Corpo:

Deus pôs tudo debaixo de seus pés e o constituiu acima de tudo, como cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que se plenifica em todas as coisas. (…)
Ninguém jamais odiou sua própria carne. Pelo contrário, alimenta-a e a cerca de cuidado, como Cristo faz com a Igreja; e nós somos membros do seu Corpo!
(EFÉSIOS 1,22-23; 5,29-30)

O próprio Jesus, Nosso Senhor, fala da união dos seus Consigo ao dizer:

Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer.
(JOÃO 15,4-5)

Existe uma comunhão de vida entre Cristo e o seu Corpo e entre os membros do Corpo entre si. O Cristo Total (Christus totus) é a unidade entre Cristo e a Igreja. Cabeça e membros são um só Corpo. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a “unidade do Corpo não anula a diversidade dos membros”, ao contrário “produz e estimula a caridade entre os fiéis” (CIC 791). O Apóstolo Paulo nos expõe a dimensão da unidade dos membros do Corpo de Cristo com o próprio Cristo e dos fiéis entre si:

Como, num só corpo temos muitos membros, cada qual com uma função diferente, assim nós, embora muitos, somos em Cristo um só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros.
(ROMANOS 12,4-5)

Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. (…) De fato, Deus dispôs os membros, e cada um deles, no corpo, conforme quis.
(1CORINTIOS 12,12.18)

A Igreja chama de “comunhão dos santos” a “comunicação nas coisas santas” e também a “comunicação entre as pessoas santas” (cf. CIC 948). Vemos, então, que Nosso Senhor não é sozinho, mas é a cabeça de um Corpo e deve ser considerado em sua totalidade (o Cristo Total). Os cristãos uma vez regenerados pelo batismo são incorporados à Igreja e, portanto, ao Corpo Místico de Cristo, podendo interceder uns pelos outros e por todos os homens, como participação da mediação única de Jesus.

 

2. OS SANTOS E A INTERCESSÃO NA TERRA

“Nós somos cooperadores de Deus.”
(1Cor 3,9)

O termo “santo” é recorrente nas cartas de São Paulo e, quando o Apóstolo utiliza esse termo, está se referindo a todos os que foram batizados e vivem na fé em Jesus Cristo, estando incorporados ao Corpo Místico de Cristo: a Igreja. São Lucas também utiliza esse termo nos Atos dos Apóstolos. É comum ver a Escritura referir-se aos primeiros cristãos como à comunidade dos “santos”. Vejamos alguns exemplos:

  • Atos dos Apóstolos 9,32: “Enquanto Pedro percorria todos os lugares, visitou também os santos que residiam em Lida.”
  • Romanos 8,27: “E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos.”
  • 2 Coríntios 1,1: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à Igreja de Deus que está em Corinto e a todos os santos que se encontram em toda Acaia…”
  • Efésios 1,1: “Paulo, apóstolo do Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que moram em Éfeso, fiéis em Cristo Jesus…”
  • Efésios 2,19-20: “Portanto, já não sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e moradores da casa de Deus; casa que tem como alicerce os apóstolos e os profetas e como pedra angular, o próprio Cristo Jesus.”
  • Filipenses 1,1: “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos no Cristo Jesus que estão Filipos, com os bispos e diáconos…”

Ainda nas cartas Paulinas há um farto material onde podemos ver o Apóstolo que se recomenda à oração (intercessão) dos santos. Vejamos também aqui alguns exemplos:

  • Romanos 15,30: “…peço-vos, irmãos, por Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo amor do Espírito, que luteis comigo, nas orações que fazeis a Deus por mim…”
  • Efésios 6,19: “…Orai também por mim, para que, quando abrir os lábios, me seja dada a palavra para anunciar com ousadia o mistério do Evangelho…”
  • Colossenses 4,2-3: “Perseverai na oração, vigilantes, com ação de graças, orando também por nós ao mesmo tempo…”
  • 1 Tessalonicenses 5,25: “Orai por nós, irmãos…”
  • Hebreus 13,18-19: “Orai por nós… Fazei-o, eu vos peço com insistência…”

No Evangelho segundo João, vemos que o início dos sinais que Jesus realizou, foi a pedido (intercessão) de Maria, em favor dos noivos:

No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava lá. Também Jesus e seus discípulos foram convidados para o casamento. Faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho!” Jesus lhe respondeu: “Mulher, que é isso, para mim e para ti? A minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (…) Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água” (…) O encarregado da festa provou da água mudada em vinho (…). Este início dos sinais, Jesus o realizou em Caná da Galiléia. Manifestou sua glória, e os seus discípulos creram nele.
(JOÃO 2,1-5.7.9.11)

Pedro, depois de ter sido preso por Herodes, foi liberto da prisão por um anjo, que foi a resposta de Deus para a Igreja que orava (intercedia como um Corpo) continuamente a Deus por ele:

Depois de prender Pedro, Herodes lançou-o na prisão (…). Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente a Deus por ele. (…). Foi quando apareceu o anjo do Senhor, e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou a ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos (…). Depois de passarem pela primeira e pela segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua, e logo depois o anjo o deixou.
(ATOS DOS APÓSTOLOS 12,4-5.7.10)

A realidade da intercessão também está presente no Antigo Testamento. Deus fala a Abimelec que ele viverá por causa da intercessão de Abraão:

Portanto devolve a mulher a seu marido, pois sendo ele um profeta, rogará por ti e viverás. (…) Abraão intercedeu por Abimelec, e Deus curou Abimelec, sua mulher e suas servas, para poderem ter filhos.
(GÊNESIS 20,7.17)

Também Ló intercedeu por um povoado e toda a cidade foi salva:

Ló respondeu: “Não, meu Senhor, eu te peço! O teu servo encontrou teu favor, e foi grande tua bondade comigo, conservando-me a vida. Mas receio não poder salvar-me na montanha, antes que a calamidade me atinja e eu morra. Eis aqui perto uma cidade onde poderei refugiar-me. É um povoado. Permite que me salve ali. É bem pequena, mas salvaria a minha vida”. E ele lhe disse: “Pois bem, concedo-te também este favor: não destruirei a cidade de que falas.
(GÊNESIS 19,18-21)

No episódio do combate do povo Hebreu contra os amalecitas, temos em Moisés um forte testemunho do poder da intercessão:

Moisés disse a Josué: “Escolhe alguns homens e sai para combater contra os amalecitas. Amanhã estarei de pé no alto da colina com a vara de poder divino na mão”. Josué fez o que Moisés lhe tinha mandado e atacou os amalecitas, enquanto Moisés, Aarão e Hur subiram ao topo da colina. Enquanto mantinha a mão levantada, Israel vencia, mas quando abaixava a mão, vencia Amalec. Como as mãos de Moisés se tornassem pesadas, alguns pegaram uma pedra e a colocaram debaixo dele para que se sentasse. Aarão e Hur, um de cada lado, sustentavam-lhe as mãos. Assim as mãos ficaram firmes até o pôr do sol, e Josué derrotou Amalec e sua gente ao fio da espada.
(ÊXODO 17,9-13)

No livro dos Números vemos novamente Moisés que intercede pelo povo e que, prontamente, Deus o atendeu:

O povo começou a murmurar contra o Senhor. Ao ouvir, o Senhor inflamou-se de ira. O fogo do Senhor irrompeu contra eles e devorou uma extremidade do acampamento. O povo pediu socorro a Moisés, que intercedeu junto ao Senhor, e o fogo se apagou.
(NÚMEROS 11,1-2)

E Deus também disse aos amigos de Jó:

Tomai, pois, sete novilhas e sete carneiros e dirigi-vos ao meu servo Jó. Oferecei-os em holocausto, e Jó, meu servo, intercederá por vós. Em atenção a ele, não vos tratarei como merece a vossa insensatez. Pois não falaste corretamente de mim, como meu servo Jó.
(JÓ 42,8)

São Paulo pede e oferece orações para os “santos”, Abraão intercede por Abimelec segundo sentença do próprio Deus, Moisés foi o intercessor do povo Hebreu, Jó intercedeu pelos seus amigos, a Virgem Maria intercedeu pelos noivos em uma festa de casamento e Pedro é liberto da prisão após a Igreja interceder continuamente a Deus por ele. Seja na Antiga ou na Nova Aliança, esses exemplos demonstram que, de fato, a intercessão é prática constante nas Sagradas Escrituras e claramente aprovada por Deus, que solicitamente atende aos pedidos do seu povo. O apóstolo Paulo que afirma que Cristo é o único Mediador é o mesmo Paulo que se recomenda às orações dos “santos”. E o próprio Jesus, em atenção ao pedido de sua Mãe, confirma a validade da intercessão.

 

3. OS SANTOS, OS ANJOS E A PODEROSA LINHA DE INTERCESSÃO NO CÉU

“Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos.”
(SALMO 116,14)

“Felizes os mortos, aqueles que desde agora morrem no Senhor.”
(APOCALIPSE 14,13)

Como já vimos, a expressão “santo” é utilizada nas Sagradas Escrituras para se referir àquele que foi santificado pelo Batismo, incorporado ao Corpo Místico de Cristo e que, dessa forma, se tornou participante de Sua mediação, podendo assim interceder pelos homens. A união com Jesus não acaba com a morte, pois a morte não separa a pessoa do Corpo de Cristo. Aquele que morreu santamente na fé em Jesus, uma vez já tendo sido batizado, continua a fazer parte desse Corpo. O apóstolo Paulo afirma que vivos ou mortos pertencemos ao Senhor e que nada, nem a morte, pode nos separar do amor de Cristo:

Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor. Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos.
(ROMANOS 14,8-9)

Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? Pois está escrito: “Por tua causa somos entregues à morte, o dia todo; fomos tidos como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas, em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Tenho certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potências, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus, que está no Cristo Jesus, nosso Senhor.
(ROMANOS 8,35-39)

O segundo livro das Crônicas afirma que o Senhor é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó (Israel), mesmo quando esses personagens Bíblicos já estavam mortos:

Então, com as cartas assinadas pelo rei e pelos notáveis, os mensageiros percorreram todo o território de Israel e de Judá, proclamando de acordo com a ordem do rei: “Israelitas, voltai ao Senhor Deus de Abraão, Isaac e Israel, para que ele se volte para o resto que escapou, dentre vós, às garras dos reis da Assíria (…)”.
(2 CRÔNICAS 30,6)

No episódio da sarça ardente, o próprio Deus o diz a Moisés:

Vendo o Senhor que Moisés se aproximava para observar, Deus o chamou do meio da sarça: “Moisés! Moisés!” Ele respondeu: “Aqui estou!” Deus lhe disse: “Não te aproximes daqui! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é chão sagrado.” E acrescentou: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó”.
(ÊXODO 3,4-6)

Ao falar sobre a ressurreição, Jesus toma a passagem de Êxodo (3,4-6) e afirma que todos, vivos ou mortos, vivem para Deus:

Que os mortos ressuscitam, também foi mostrado por Moisés, na passagem da sarça ardente, quando chama o Senhor de “Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó”. Ele não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele.
(LUCAS 20,37-38)

Ao apóstolo João, tomado pelo Espírito no dia do Senhor (cf. Ap 1,10), foi revelado quais são as atividades realizadas pelos que já morreram fisicamente. João vê uma multidão de santos no céu (cf. Ap 7,9). O Apóstolo, ao narrar a revelação que tivera, escreve no livro do Apocalipse que os santos estão rezando diante de Deus, clamando justiça. Essas almas prestam culto a Deus no céu, dia e noite. As almas dos santos não estão alheias ao que acontece na terra, mas, ao contrário, estão diante de Deus, ativamente intercedendo de forma mais perfeita, pois estando no céu, não podem mais pecar ou desobedecer a Deus em nada. Eles clamam a Deus e Ele os responde:

Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar aqueles que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que tinham dado. Gritaram com voz forte: “Senhor santo e verdadeiro, até quando tardarás em fazer justiça, vingando o nosso sangue contra os habitantes da terra? Então, cada um deles recebeu uma veste branca e foi-lhes dito que esperassem mais um pouco de tempo, até se completar o número dos seus companheiros e irmãos, que iriam ser mortos como eles.
(APOCALIPSE 6,9-11)

Nos dois capítulos seguintes, é revelado a João que os santos têm diante de Deus o serviço da oração, dia e noite. Esse contato direto dos santos com Deus trata de questões da terra e, por graça do próprio Deus, os santos no céu possuem um conhecimento sobre os acontecimentos terrestres. Lemos que as orações dos santos são, juntamente com incenso, oferecidas no altar que está diante do trono de Deus. Nessa linha de intercessão, as orações dos santos são mediadas por anjos, sobem à presença de Deus e causam efeitos sobre a terra:

Então, um dos Anciãos falou comigo, perguntando: “Estes, que estão vestidos com túnicas brancas, quem são e de onde vieram?” Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”. Ele então me disse: “Estes são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as vestes no sangue do Cordeiro. Por isso, estão diante do trono de Deus e lhe prestam culto, dia e noite, no seu santuário. E aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda.
(…)
E veio outro anjo que se colocou perto do altar, com um turíbulo de ouro. Ele recebeu uma grande quantidade de incenso, para oferecê-lo com as orações de todos os santos, no altar de ouro que está diante do trono. E da mão do anjo subia até Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos. Então, o anjo pegou no turíbulo e encheu-o com o fogo do altar e atirou o turíbulo sobre a terra. Houve trovões, clamores, relâmpagos e terremoto.
(APOCALIPSE 7,13-15; 8,3-4).

Na Carta aos Hebreus temos, de forma especial no capítulo 11, um louvor à fé que tiveram os heróis do Antigo Testamento: Abel, Noé, Abraão e Sara, Isaac, Jacó, José, Moisés, Davi, Gedeão, Samuel, e outros que são citados. Com a certeza de que Deus lhes havia preparado uma cidade, a pátria celeste, “todos eles morreram firmes na fé” (cf. Hb 11,13). A promessa feita por Deus foi cumprida em Jesus Cristo, pelo qual as portas do Céu foram abertas e os santos receberam de Deus a cidade celestial. O autor da Carta aos Hebreus nos diz que esses heróis estão no Céu com Deus e ao mesmo tempo conosco, como uma “nuvem de testemunhas”:

Portanto, com tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve. Corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição.
(HEBREUS 12,1-2)

O prof. Dr. Scott Hahn (2016), ao escrever sobre o texto da Carta aos Hebreus (cap. 11), afirma que

Os patriarcas de Israel deixaram testemunhos, atos terrenos, dos quais a Igreja se lembrava. (…) Quando os cristãos ouviam o testemunho de vida desses patriarcas, eram enriquecidos em suas próprias provações, pois tais testemunhos, falavam mais do que as provações. E eram vistos, também, pelos patriarcas… E o autor de Hebreus queria que seus leitores soubessem que os cristãos não estavam sozinhos em suas lutas, pois os heróis antigos estavam com eles, olhando-os a partir da pátria na qual, também um dia, iriam todos aqueles que perseverassem na fé. Não que os santos estivessem distantes, mas estavam “juntos” com os fiéis na terra.

Para o povo Hebreu, a nuvem era a própria glória de Deus (Shekinah). No Antigo Testamento, quando o povo de Israel saiu do Egito, Deus precedia seu povo, em uma nuvem, pelo deserto:

O Senhor os precedia, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho; de noite, numa coluna de fogo para iluminar, a fim de que pudessem andar de dia e de noite. De dia não se afastava do povo a coluna de nuvem, nem de noite a coluna de fogo.
(…)
Enquanto Aarão falava a toda a comunidade dos israelitas, voltaram-se estes para o deserto e viram na nuvem a glória do Senhor.
(ÊXODO 13,21-22; 16,10)

Era de uma nuvem que Deus se utilizava para falar com Moisés:

E o Senhor disse a Moisés: “Virei a ti em nuvem escura, para que o povo ouça quando eu falar contigo e creia sempre em ti”.
(…)
E o povo manteve-se a distância, enquanto Moisés aproximou-se da nuvem, na qual estava Deus.
(…)
A glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu durante seis dias. No sétimo dia, ele chamou Moisés do meio da nuvem.
(ÊXODO 19,9; 20,21; 24,16)

Deus se fazia presente na Tenda do Encontro feita por Moisés e depois no Templo de Salomão através da sua nuvem de glória:

Então a nuvem envolveu a Tenda do Encontro, e a glória do Senhor encheu a morada. Moisés não podia entrar na Tenda do Encontro, porque sobre ela repousava a nuvem, e a glória do Senhor ocupava a morada.
(ÊXODO 40,34-35)

Ora, quando os sacerdotes deixaram o santuário, uma nuvem encheu a casa do Senhor, e os sacerdotes não puderam continuar as funções por causa da nuvem: a glória do Senhor tinha enchido a casa do Senhor. Então Salomão disse: “O Senhor disse que habitaria em densa nuvem! Sim, foi para ti que eu edifiquei uma casa esplendorosa, uma morada em que habitarás para sempre”.
(1 REIS 8,10-13)

No Novo Testamento, a mesma nuvem se manifestou quando Jesus subiu ao céu diante dos discípulos:

Então, os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restabelecer o Reino de Israel?” Jesus respondeu: “Não cabe a vós saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. Depois de dizer isto, Jesus foi elevado, à vista deles, e uma nuvem o retirou aos seus olhos.
(ATOS DOS APÓSTOLOS 1,6-9)

Sobre a “nuvem de testemunhas”, conclui Scott Hahn (2016):

Jesus é entronizado na glória naquela “nuvem”, na qual Ele é o “primogênito dentre muitos irmãos” (Rm 8,29). No início, “nenhum deles alcançou a promessa” (Hb 11,39); mas, agora, eles estavam na terra prometida, como a Igreja, cercados pela nuvem. (…) O que vemos no Apocalipse confirma o que lemos em Hebreus: os mártires nos céus são uma “nuvem de testemunhas” ao redor dos seus irmãos cristãos na terra. Além disso, são intercessores no céu pela causa da Igreja na terra.

Portanto, ao afirmar que somos cercados por uma “nuvem de testemunhas”, a carta aos Hebreus invoca essa tradição de fé dos destinatários da carta e, quando lida em conjunto com o testemunho de João no Apocalipse, nos confirma que os heróis do Antigo Testamento e os santos da Nova Aliança habitam com Deus em sua nuvem de glória, que por isso cercam os fiéis na terra e ao mesmo tempo intercedem pela Igreja na eternidade.

 

4. CONCLUSÃO

Jesus é o único mediador porque é só por sua humanidade que somos salvos. A mediação única de Jesus não anula a intercessão entre os crentes, pelo contrário, Cristo uniu a Si os seus em um Corpo Místico onde há comunicação das coisas santas e entre as pessoas santas.

A Palavra de Deus atesta a importância e validade da intercessão entre os que, comumente, chama de santos. Aqueles que morreram em Deus habitam na nuvem, na glória de Deus. Os mortos estão em Deus. Jesus, que subiu aos céus na nuvem, abriu as portas da cidade celeste para os heróis do Antigo Testamento e os santos da Nova Aliança. Uma vez em Deus, os santos intercedem pela causa da Igreja na terra e as suas orações surtem efeitos na terra.

Podemos, sem receio, recorrer à intercessão dos santos, seja os da terra ou do céu, pois sendo membros do Corpo Místico de Cristo, eles compartilham da mediação da humanidade de Cristo, onde humano e divino são perfeitamente unidos e se comunicam.

Seguindo, portanto, a Palavra de Deus, a Igreja permanece fiel à fé dos Apóstolos e, como Paulo, recebe e oferece orações e, crendo no testemunho de João, recorre à intercessão dos santos que estão na glória, diante de Deus. Assim como Paulo, ela nos exorta: “Portanto, ficai firmes e guardai cuidadosamente os ensinamentos que vos transmitimos, de viva voz ou por carta.” (2 Tessalonicenses 2, 15)

 

5. REFERÊNCIAS

Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
Franca, Pe. Leonel. O Protestantismo no Brasil. Rio de Janeiro: Agir, 1952.
Hahn, Scott. Razões para Crer. Lorena: Cléofas, 2015.
Equipe Christo Nihil Praeponere. Artigo Papa Francisco faz catequese sobre a comunhão dos santos. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/blog/papa-francisco-faz-catequese-sobre-a-comunhao-dos-santos <Acesso em 16.06.2017>.
Fedeli, Orlando. Cartas – Apologética, Sobre a Intercessão dos Santos. Disponível em: http://www.montfort.org.br/bra/cartas/apologetica/20040822212040 <Acesso em 15.06.2017>.
______. Cartas – Apologética, Intercessão dos Santos. Disponível em: http://www.montfort.org.br/bra/cartas/apologetica/20040821162132 <Acesso em 15.06.2017>.
Ricardo, Pe. Paulo. Programa: Testemunho de Fé, episódio 215, Todos os Santos e Finados – A Igreja, comunhão e mediação dos santos. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/episodios/todos-os-santos-e-finados-a-igreja-comunhao-e-mediacao-dos-santos <Acesso em 16.06.2017>.
______. Programa A Resposta Católica, episódio 18, Intercessão dos Santos. Disponível em: https://padrepauloricardo.org/episodios/intercessao-dos-santos <Acesso em 16.06.2017>.