Entrei onde não soube (Glosas sobre um êxtase de alta contemplação), por São João da Cruz

(Ávila 1572-1577)

Entrei onde não soube
E quedei-me não sabendo
Toda a ciência transcendendo.

1. Eu não soube onde entrava
Porém, quando ali me vi,
Sem saber onde estava,
Grandes coisas entendi;
Não direi o que senti,
Que me quedei não sabendo.
Toda a ciência transcendendo.

2. De paz e de piedade
Era a ciência perfeita,
Em profunda soledade
Entendida (via reta);
Era coisa tão secreta,
Que fiquei como gemendo,
Toda a ciência transcendendo.

3. Estava tão embevecido,
Tão absorto e alheado,
Que se quedou meu sentido
De todo o sentir privado,
E o espírito dotado
De um entender não entendendo,
Toda a ciência transcendendo.

4. O que ali chega deveras
De si mesmo desfalece;
Quanto sabia primeiro
Muito baixo lhe parece,
E seu saber tanto cresce,
Que se queda não sabendo,
Toda a ciência transcendendo.

5. Quanto mais alto se sobe,
Tanto menos se entendia,
Como a nuvem tenebrosa
Que na noite esclarecia;
Por isso quem a sabia
Fica sempre não sabendo,
Toda a ciência transcendendo.

6. Este saber não sabendo
É de tão alto poder,
Que os sábios discorrendo
Jamais o podem vencer,
Que não chega o seu saber
A não entender entendendo,
Toda a ciência transcendendo.

7. E é de tão alta excelência
Aquele sumo saber,
Que não há arte ou ciência
Que o possam apreender;
Quem se soubera vencer
Com um não saber sabendo,
Irá sempre transcendendo.

8. E se o quiserdes ouvir,
Consiste esta suma ciência
Em um subido sentir
Da divinal Essência;
É obra da sua clemência
Fazer quedar não entendendo,
Toda a ciência transcendendo.

Fonte: São João da Cruz. Obras Completas, 7ª edição. Petrópolis: Vozes, 2012.