Por toda a formosura (Glosas ao Divino), por São João da Cruz

(1585-1586)

Por toda a formosura
nunca eu me perderei,
mas sim por um não sei quê
que se alcança porventura.

1. Sabor de bem que é finito,
ao mais que pode chegar
é cansar o apetite
e estragar o paladar;
e assim por toda a doçura
nunca eu me perderei,
mas sim por um não sei quê
que se acha porventura.

2. O coração generoso
nunca cuida de parar
por onde é fácil passar,
mas no mais dificultoso;
nada lhe causa fartura,
e sobe tanto sua fé,
que gosta de um não sei quê
que se acha porventura.

3. O que de amor adoece
pelo divino ser tocado,
tem o gosto não trocado
que nos gostos desfalece;
como ao que tem calentura
enfada o manjar que vê,
e apetece um não sei quê
que se acha porventura.

4. Não vos cause espanto isto
que o gosto se torne tal,
porque é a causa do mal
alheia de todo o resto;
e assim toda a criatura
alienada se vê,
e gosta um não sei quê
que se acha porventura.

5. é porque estando a vontade
de Divindade tocada,
não pode ficar saldada
a não ser como Divindade;
mas porque essa formosura
somente se vê por fé,
saboreia um não sei quê
que se acha porventura.

6. Assim de tal namorado
dizei-me se tendes dor,
pois que ele não tem sabor
entre tudo o que é criado;
só, sem forma e sem figura,
sem achar arrimo e pé,
gostando lá não sei quê
que se acha porventura.

7. Não pensei que o interior,
que é de muito mais valia,
acha gozo e alegria
no que cá produz sabor;
mas sobre toda a formosura
e o que foi, será e é,
gosta de lá um não sei quê
que se acha porventura.

8. Mais emprega seu cuidado,
quem se quer avantajar,
no que inda está por ganhar
que no que já tem ganhado;
e assim para mais altura,
eu sempre me inclinarei
sobretudo a um não sei quê
que se acha porventura.

9. Pelo que pelo sentido
se pode cá compreender
e quanto se pode entender,
seja embora mui subido
nem por graça e formosura
eu nunca me perderei,
mas sim por um não sei quê
que se acha porventura.

Finis

Fonte: São João da Cruz. Obras Completas, 7ª edição. Petrópolis: Vozes, 2012.